1ª PARTE


Abaixo, seguem três trechos da primeira parte do "Elo, Entrelinhas & Alucinações", para apreciação:


“BEM VINDOS À SANTA JULIANA DO PLAYMOBIL”

CAPÍTULO I

Quarenta anos se passaram desde que o Grande Surto Migratório quadruplicara a população de Santa Juliana do Playmobil. Durante quase uma década todos os aviões, navios e máquinas mil, lotadas de pessoas interessadas em empreender grandes negócios, mudar de vida, enriquecer, tiveram este afamado país como destino.

Diversas características geográficas, como a ridícula extensão territorial, a esdrúxula vegetação, a irregular distribuição demográfica, o oceano banhando todas as regiões cardeais, além da distância que o povo playmobilense sempre gostou de manter de todos os continentes (embora, em épocas remotas, várias nações tenham disputado a colonização deste pequeno e incomum ponto do mapa mundi), levariam qualquer pessoa à suposição de que Santa Juliana do Playmobil não passa de uma ilha.

Não chega a ser uma conclusão completamente equivocada, mas é o mesmo que julgar o elefante apenas pela tromba ou o leão pela juba. Originariamente ocupada por tribos aborígines sem paralelos, a maioria antropófaga, ao longo do tempo Santa Juliana do Playmobil recebeu a estabanada visita de inúmeros representantes de diversas civilizações primitivas. 

Além dos famosos fósseis do período neolítico, recolhidos em território playmobilense, foram encontradas várias inscrições rupestres neste país, bem como inúmeros objetos que comprovam a passagem de certos povos por Playmobil. E isto antes mesmo dos chamados grandes navegadores começarem a engatinhar.

No Museu de História Natural e Sintética de Santa Juliana do Playmobil, situado na capital, cujo nome é um verdadeiro trava-línguas, Moputo Krivatlinclável, por exemplo, há um sem-número de artefatos expostos que seriam a prova da presença dos bravos e desavisados visitantes.

Quem se dispor a percorrer os estreitos corredores do museu, e chegar ao setor denominado “Viva o Homem Cornudo!”, deparar-se-á com um chapéu Viking que fora encontrando trinta anos atrás em poder dos derradeiros descendentes de aborígines santo juliano playmobilenses. As autoridades acharam por bem incorporar o objeto ao acervo do museu.

Entre outras peculiaridades, os Vikings são conhecidos pelos historiadores como uma civilização que prezava a arte da navegação. Este antigo povo nórdico teria passado por Playmobil meio que por um acaso imposto pelo destino. Procuravam terras geladas para expandirem os seus domínios. Reza a lenda que duas de suas gloriosas embarcações se perderam da rota e acabaram enfrentando as águas revoltas que dão acesso à Santa Juliana. Atracaram numa das belíssimas e ensolaradas praias que nos dias atuais fazem a festa dos turistas.

Suados e vermelhos por causa do sol forte e do calor escaldante, o grupo de mais ou menos quinze vikings foi recepcionado pelos surpresos aborígines. Usando os típicos capacetes com chifres, foram conduzidos através da mata até a aldeia, onde os nativos prepararam uma grande festa ritual.

Ninguém sabe ao certo a causa da discórdia entre as duas culturas. O motivo é completamente obscuro. Talvez os aborígines tivessem certas intenções desde o começo, mas as histórias contadas por seus descendentes apontam outras circunstâncias. Em dado momento dos festejos, após muitas danças, bebidas alucinógenas e cachimbos com ervas aromáticas, sentindo-se à vontade perante a nudez dos nativos, um dos vikings pensou que também poderia se despir e seduzir uma jovem aborígine, cuja virgindade fora prometida aos deuses em troca da vitória numa contenda local entre tribos inimigas.

Os valorosos nórdicos se transformaram no prato principal de um banquete que se estendeu por uma semana. Os festejos atravessavam os dias e se estendiam madrugada adentro sem um minuto de descanso. Os nativos se revezavam nos tambores, dançavam ao redor da fogueira, faziam demonstrações de força, atacavam a comida. Nenhum aborígine jamais ouvira falar de uma comemoração tão farta.

Há relatos, sem nenhuma comprovação científica, que apontam a morte de diversos nativos. Eles não estavam acostumados com a quantidade e a qualidade da iguaria e acabavam passando mal. Os descendentes de aborígines não se cansam de lembrar das histórias sobre o banquete que um povo de pele branca, usando um chapéu com chifres, proporcionou aos seus antepassados.


TRECHO II

"A intenção de Robert Cacareco ao empreender tantos projetos, era de que todo o dinheiro trazido pelos pretendidos turistas fosse parar diretamente nas mãos dos habitantes. Por sua vez, os playmobilenses “doariam” dez por cento de tudo o que arrecadassem para os cofres do governo de Santa Juliana. Tratava-se dos primeiros impostos tributados naquela nação. Era a economia de mercado finalmente tomando conta de Playmobil.

Obviamente uma parte substancial dos impostos seria desviada aos bolsos Cacarecos. O presidente se sentia no direito a uma gorda comissão. Com o dinheiro restante, porém, Robert poderia fazer os demais investimentos estruturais de que o país tinha necessidade.Depois que Playmobil tomasse os turistas dos outros países e se desenvolvesse, ninguém teria coragem de continuar a fazer chacotas sobre a nação que ele governava. Então o nome do presidente enfim seria reconhecido. Cacareco se tornaria a figura mais importante que já pisou naquele solo.

“Danem-se todos eles!”, disse Robert consigo mesmo.

Ele se perdeu tão profundamente a imaginar, com um sorriso de triunfo nos lábios, o esplêndido futuro que os playmobilenses trilhariam sobre uma calçada pavimentada com pedras preciosas, que nem ao menos se deu conta da persistente presença de Maritaca no gabinete presidencial. Saudosista como nunca fora, a lembrar-se das terras por onde passara, Saulo Custof não seguira Emergencial quando o mesmo partiu em direção a seu descanso.

Maritaca simplesmente se sentou no desconfortável e sufocante sofá de capa de couro e se entregou às lembranças... A imensidão do oceano, o garçom no navio; a arquitetura gótica, as prostitutas e o cafetão; os canais e gôndolas, o casal e a água podre; os castelos e monumentos, o soldado da guarda-real e sua potente lança.

As cortantes palavras Cacarecas despertaram Maritaca de um de seus raros momentos de torpor e silêncio. Robert sentara ao seu lado e lhe dera alguns tapinhas nas costas. Por que cargas d’água o privavam com tanta falta de sensibilidade de suas tão doces lembranças?

“Meu caro Maritaca! Tenho grandes planos para nós! Grandes planos!”, disse Cacareco, exagerando na inflexão da palavra “grande” e abrindo os braços a fim de dar ao futuro Ministro da Publicidade Hipnótica uma idéia mais aproximada da dimensão de seus planos.

No entanto as semanas se sucediam e nenhum navio ancorava no modesto e recém construído porto de Santa Juliana. Nenhum turista pisava em solo playmobilense impulsionado pelas peças publicitárias colhidas através do concurso de slogans. As pousadas, restaurantes, bares, lanchonetes, os bordéis de Teobaldo de Salto Alto, o grandioso casino de Moputo Krivatlinclável, tudo, enfim, estava à mercê das moscas.Tanto Cacareco quanto a população estavam inconsoláveis. Robert se perguntava sobre a possibilidade de Emergencial e Maritaca terem embolsado o suado dinheiro que se arrecadou a fim de divulgar as belezas de Santa Juliana. A maior parte deste montante, inclusive, Cacareco tirou do próprio bolso, minguando cada vez mais uma herança que nunca fora propriamente suntuosa.

Era verdade que Castro e Saulo Custof andavam estranhos desde que voltaram de sua viagem pelos continentes, mas a desconfiança do presidente só ganhava força nas horas em que o desespero o dominava. Era quando o sol se escondia sem que nenhum turista tivesse se bronzeado nas praias de Playmobil. Era quando Robert Cacareco tomava consciência de que as bebidas alucinógenas, os refrigerantes exóticos, os petiscos rústicos condimentados, etc., continuavam a lotar os tonéis e bombonieres das lanchonetes e pub’s, e que ninguém compartilhara das camas das prostitutas descendentes de aborígines meticulosamente treinadas para darem o máximo prazer aos seus clientes.

Três meses transcorreram e o peito de Cacareco não mais se enchia de ar e esperanças quando o presidente pensava em turistas. A população nem ao menos se aproximava das construções que erguera com parcos instrumentos e tamanho esforço. Estava tão decepcionada quanto Robert e muitas vezes também sentia vontade de destruir absolutamente tudo.

Pela primeira vez Cacareco não tinha a menor idéia sobre o que fazer. Ele apostara e se dedicara pra valer àquele projeto. Estava profundamente cansado, sentado na cadeira de uma presidência que nada significava, os mosquitos a zumbizarem no calor do ambiente, centenas de papéis sobre a mesa exibindo os slogans escolhidos para divulgarem as belezas de Playmobil. Por que ninguém se interessara por Santa Juliana? Malditos!

Subitamente um barulho despertou Cacareco de suas desanimadoras, injuriosas e monótonas reflexões. Tal ruído foi seguido por alguns gritos histéricos dados pelos transeuntes que se encontravam próximos à sede do governo. Dois assessores adentraram o gabinete presidencial. Eles apresentavam a mesmíssima expressão de medo. Estavam sem fôlego e Robert teve que controlar a ansiedade até que os dois se recuperassem.

A maioria dos habitantes nem ao menos ouvira falar sobre aquele enorme “pássaro de aço” que cruzava os céus playmobilenses à procura de um campo de pouso, berrando monstruosamente e em altitude cada vez menor. Pensou-se numa punição dos deuses ou na invasão de uma espécie animal bastante perigosa. Qual seria a presa de tal aberração? Será que o monstro se alimentava de carne humana assim como os lendários antepassados aborígines?

Robert saiu às ruas pedindo calma aos eleitores. Mandou alguns assessores espalharem a notícia de que aquela máquina transportava os primeiros turistas de Santa Juliana do Playmobil. Cacareco sabia que em menos de duas horas todo o país já teria sido informado.

Ninguém conhecia a fundo o sistema de comunicação dos descendentes de aborígines. O fato é que as mensagens transmitidas através de toques ritmados de tambor percorriam o território nacional numa velocidade espantosa. Não era um sistema tão instantâneo como os constituídos pelos maravilhosos aparelhos tecnológicos a que estamos acostumados, mas logo todos os playmobilenses souberam da incrível aeronave que pousara a dois quilômetros da capital Moputo.

Tratava-se de um monomotor bastante vagabundo, com capacidade máxima para cinco passageiros. Mesmo assim o seu pouso, numa clareira próxima à Praia do Peixe Gordo e Azarado, serviu para que a empolgação se propagasse por Santa Juliana. Robert e o país que ele governava recobraram as suas esperanças. Será que os corajosos visitantes transportados pelo monstro de aço eram muito ricos?"


TRECHO III

"Só o que se via eram as costas do presidente Cacareco. Estes momentos de suspense duraram até o instante em que Robert começou a se mover. Tentando se colocar de pé, perturbado por causa da pancada, ele segurava uma lasca de pedra que a sua cabeça arrancara do grande mineral que o derrubou. Erguendo o braço a fim de observar o objeto contra a luz do sol, intrigado com a coloração amarelada sob a camada de lodo, Cacareco observava fixamente a pedra.

“É amarela?”, perguntou a si mesmo.

As palavras do presidente eram pronunciadas com certa apatia e imprecisão. O tombo deixara Cacareco um pouco zonzo. O sangue escorria em filetes pelo rosto através do corte acima da sobrancelha direita. O líquido lhe estorvava a visão. Seus olhos esbugalhados estavam vidrados, como os de quem acabara de acordar após uma noite regada a delirantes e apaziguantes e alienadamente entorpecentes tranquilizantes.

“É amarela! É ouro! É ouro!”, gritou para o espanto geral, sem saber muito bem como reagir diante da ocasional descoberta.

Ninguém dizia uma única palavra, somente se dava interjeições de surpresa. Os jornalistas estavam certos de que tinham uma excelente matéria em mãos. Desde o princípio eles não queriam ter vindo a Santa Juliana do Playmobil. Foram forçados a embarcarem naquela viagem pela intuição do editor da revista. Subiram no avião sem a mínima esperança de realizarem um trabalho relevante.

“Playmobil! Que porcaria de lugar é este?”

Agora se obrigavam a reconhecer que a intuição do chefe era um verdadeiro fenômeno. Não era por acaso que ele dirigia um dos maiores e mais respeitados periódicos do mundo. Os estrangeiros discretamente acenaram ao fotógrafo: queriam que todos os acontecimentos fossem registrados. O último não demorou a compreender os gestos.

O fotógrafo foi até a horrorosa maleta preta, novamente empunhou a máquina, retirou a tampa da lente e começou a clicar a esmo. Foram dezenas de disparos tendo a cachoeira como fundo, os raios solares incidindo diretamente sobre a superfície da água, dando-lhe um aspecto cintilante e revelando o fundo do lago, e Robert Cacareco à frente, o braço em v estendido para o alto, o rosto voltado para o céu alinhado em diagonal com a pedra, que o presidente ainda observava como um abobalhado bufão sob hipnose.

“Não foi uma boa idéia deixar os jornalistas tirarem fotografias. Era sua a obrigação de impedi-los!”, disse Castro Emergencial assim que tomou conhecimento dos fatos que se sucederam na Cachoeira do Quiabo Lustroso.

A testa de Robert Cacareco apresentava um curativo grotesco. Dali escorria um fedorento emplastro de raízes preparado pelo Ministro da Geração Saúde Plena. O presidente não estava gostando nem um pouco das observações de Castro, embora respeitasse as suas preocupações, que se referiam sobretudo à descoberta que a cabeçada Cacareca lhes proporcionara. “Emergencial: um grande estraga-prazeres! Assim estará escrito em sua lápide!”, pensou Robert.Os jornalistas não tinham a menor importância. Quem precisava deles? Agora Robert Cacareco não precisava de nenhuma pessoa que vivesse além dos limites de Santa Juliana. Que os turistas fossem visitar outro lugar bem distante de Playmobil! Que visitassem o espaço sideral! Que fossem parar no inferno! Quem precisaria deles com tanto ouro à disposição?

O nome do presidente entraria para a história por méritos de seu próprio país. Nenhum playmobilense serviria como empregado ou tapete de se limpar os pés a maçantes estrangeiros e suas exigências pedantes. Fora por absoluta falta de opções que Cacareco investira esforços na idéia de transformar Santa Juliana em um centro turístico. Tão somente por isso.Robert Cacareco, assim como qualquer outro playmobilense, jamais se esqueceria de que nos tempos da exploração dos países colonizadores Playmobil fora abandonado à sua própria sorte e se tornara motivo de chacota. Também era impossível relevar as portas que se trancaram quando o presidente mandara Castro mendigar a ajuda da comunidade internacional.

“Nós encontramos ouro! Você não percebe a magnitude de tal descoberta?”, perguntou Robert, lançando a pedra sobre a mesa do gabinete presidencial em direção a Castro, certo de que nenhuma palavra do Ministro das Harmoniosas e Irrestritas Relações Internacionais o desanimaria.

A sala estava abafada. O presidente costumava trancar a porta e as janelas e se encerrar no gabinete sempre que precisava refletir. Robert Cacareco gostava de pensar sem interferências exteriores. Ele instruíra os assistentes a impedirem a entrada de qualquer pessoa. Todavia Castro era mestre em dissuadir os descendentes de aborígines que trabalhavam na sede governamental.

Estudando minuciosamente a pedra que segurava entre os dedos, Castro chegava a se entusiasmar. Contudo um pressentimento inexplicável fazia com que mantivesse a cautela. Sua personalidade não condizia com arroubos e manifestações exacerbadas de qualquer tipo. A reação mais intensa que o maior comediante do mundo conseguiria de Castro Emergencial seria um discreto sorriso de canto de lábios.

“Precisamos ao menos mandar fazer alguns exames!”

Robert estava ficando cansado daquela ladainha. Obviamente verificar a composição da pedra constava em seus planos, mas havia coisas mais importantes a serem resolvidas. O futuro de Playmobil estava em suas mãos e ele precisava medir cada passo antes de tomar qualquer que fosse a iniciativa. Cacareco acreditava que nem todos os passos em falso levavam a minas de ouro.

“Não posso perder tempo com bobagens!”, concluiu o presidente. Ele ansiava por tranqüilidade a fim de pensar no futuro. Portanto mandou Castro localizar Saulo Custof Maritaca para que os dois seguissem viagem até a ilha vizinha. Ali providenciariam o tal exame e lhe deixariam em paz. Robert confiava em Emergencial, mas não queria que ele se sentisse tentado a embolsar a pepita. Maritaca seria o seu desestímulo."