2ª PARTE

Abaixo segue o Capítulo IX na íntegra para apreciação:


IX – “A DOCE VOZ DOS ALIENÍGENAS”


"Desde que começara a ser abduzida por extraterrestres, Escolástica Peregrina vinha percorrendo os consultórios dos especialistas a fim de identificar e extrair o chip que os malditos espaciais implantaram na sua cabeça. Implantaram bem no meio do cérebro, perfeitamente visível, embora as mais modernas e caras máquinas laboratoriais não registrassem absolutamente nada além do comum.

Escolástica gastava praticamente todo o seu salário de guia no Aquário Nacional Astrolábio Oceans Creatures e Co. com exames laboratoriais. Todavia os patologistas eram mesmo uns incompetentes. O chip estava lá, Peregrina podia vê-lo em sonhos, seu formato estelar, mas os filhos-da-puta sempre diziam: “Minha senhora! Esta mancha escura é uma parte do seu cérebro!”.

“São mesmo uns exploradores! Eles só pensam no meu dinheiro! Só falarão a verdade quando eu não tiver mais nenhum centavo astrolábico nos bolsos!”, comentava Escolástica com as suas amigas do Grupo de Estudos Estratosféricos Homenzinhos Verde-Rosa.

De nada adiantaria acompanhar aquele senhor a uma consulta médica. A mesma não serviria para absolutamente nada. Se Peregrina estivesse no lugar de Juarez da Conceição, antes que fosse tarde demais, desistiria de uma vez por todas da loucura que era se consultar com médicos. Desistiria enquanto ainda lhe restava algum dinheiro. Desistiria antes que os clínicos começassem a inventar mentiras a fim de engordarem as suas contas bancárias.

Escolástica Peregrina negou o favor que Juarez da Conceição lhe pedira. Explicou de maneira resumida a sua traumática experiência com médicos. Na verdade ela apenas começou a contar a história que já revelara a tantas pessoas, inclusive através de um programa de entrevistas da TV, pois Juarez estava com pressa. Logo pediu desculpas e foi embora.

“Um grande mal-educado!”, pensou Escolástica, repetindo o adjetivo que costumava atribuir a todos aqueles que não se dispunham a ouvi-la. “Deviam respeitar e ouvir os conselhos dos mais experientes! As pessoas precisam muito mais de mim do que eu preciso delas! Quando os alienígenas resolverem invadir o planeta, nem ao menos saberão como reagir!”

Mas não eram todos os playmobilenses que tapavam os ouvidos às palavras de Peregrina. Ela era bem famosa e contava com um razoável número de fiéis seguidores. Tudo começou quando Escolástica tinha apenas oito anos de idade. Ela estava à procura de seu cachorrinho de estimação, um poodle acinzentado chamado Toradoida, que se perdera pelas escuras matas que outrora circundavam Moputo Krivatlinclável.

Escolástica ainda não conhecia as histórias sobre as incríveis peculiaridades das pedras que formavam a Cachoeira do Quiabo Lustroso. Ela teve o desprazer de experimentar a singular capacidade das mesmas de provocar tombos. Escorregou por um ou dois metros e caiu. Bateu a cabeça num tronco de árvore que algum raio havia atingido.

Peregrina ficou desacordada durante quase meia-hora e despertou com as melosas lambidas de Toradoida. Deste dia em diante, com toda a convicção que a caracterizava, Escolástica passou a relatar sua possível abdução. Ela tinha certeza de que não ocorrera tombo ou desmaio. Enquanto escorregava vertiginosamente em direção ao tronco, uma luz prata muito intensa envolvera o seu corpo. Então Peregrina teria sido sugada para dentro de um disco voador.

Escolástica dava detalhes impressionantes sobre a sua estada numa nave interplanetária alienígena. Ela passara por diversas e macabras experiências científicas. Fora cobaia em testes com descargas elétricas, medidores de ondas cerebrais, aceleradores gravitacionais, etc. Finalmente os extraterrestres resolveram devolvê-la a terra, mas antes espalharam cirurgicamente por seu corpo uma grande quantidade de chips. Tais peças encerravam altíssima tecnologia e serviam às mais diversas funções. O principal chip era justamente o que se situava no encéfalo de Peregrina.

Escolástica afirmava ainda que aquela não seria a única abdução que ela sofreria. Daquele dia em diante os alienígenas viriam buscá-la constantemente a fim de darem manutenção nos chips e engendrarem novas experiências. Tornou-se comum a jovem Peregrina sumir durante as madrugadas. Só reaparecia algumas horas depois. Voltava com as roupas todas sujas e rasgadas ou mais raramente nua.

No começo os pais de Escolástica ficaram preocupados. Tentaram manter acirrada vigilância sobre a filha. Vasculhavam os arredores de Moputo Krivatlinclável com cães farejadores, policiais armados, detetives, mas tratava-se de um esforço inútil. Os desaparecimentos continuavam acontecendo e Peregrina nunca era encontrada. Ela sempre voltava por si mesma, contando outras histórias sobre os fantásticos alienígenas e suas naves extraordinárias.

Os pais de Peregrina ficavam profundamente constrangidos com os relatos da filha. Sempre que eles recebiam alguma visita, Escolástica descia as escadas portando-se como um fantasma. Ultimamente ela não aceitava vestir outro tom de roupa que não fosse o branco. Muitas vezes surrupiava os trajes brancos de sua mãe.

“Você acredita em discos voadores? Você acredita em vida além da terra?”, perguntava Peregrina à boquiaberta visita.
“Não sei... O que os extraterrestres viriam fazer aqui?”
“O que nós fomos fazer na lua? Por que lançamos sondas pelo sistema solar? Meu caro! Curiosidade científica! Não percebe? Raciocine! Você também é gente!”

Neste momento as visitas disfarçavam o desconforto e os pais de Escolástica abriam sorrisos amarelos. Isto porque eles não podiam esconder os enrubescidos rostos como faziam as avestruzes. Sobretudo quando Peregrina se irritava com as respostas das visitas e insistia no assunto em tom ameaçador.

“Deixa estar! No dia em que os extraterrestres os abduzirem, introduzirem uma sonda no cu de vossas senhorias e ali implantarem um imenso chip, certamente vocês passarão a acreditar em vida além da terra!”

Antes de se tornar adulta, os pais de Escolástica a obrigaram a passar pelas mãos dos mais famosos astropsiquiatras, playmopsicólogos e neuroplaymologistas de Santa Juliana do Playmobil. Ela tomou o que havia de mais moderno em drogas farmacêuticas. Participou de novíssimas técnicas terapêuticas e inúmeros grupos anônimos, cujo formato ao menos serviu para lhe inspirar a fundação do Grupo de Estudos Estratosféricos Homenzinhos Verde-Rosa.

Sozinha no mundo e tendo sobre os ombros o peso da fortuna que os seus pais lhe deixaram como herança, oriunda de investimentos financeiros no mercado de capitais, Peregrina percorreu Playmobil com uma palestra de sua autoria, intitulada: “Os Alienígenas Vêm Aí!”. Esta palestra atraía um razoável número de espectadores aos principais anfiteatros de Santa Juliana.

As anotações que Escolástica costumava fazer após as abduções, foram compiladas e publicadas em livro por uma editora que acabara de lançar um selo especializado em obras exotéricas e auto-ajuda. As pessoas se impressionavam com o conteúdo da obra. Emocionavam-se com o relato de Escolástica sobre a sua primeira abdução e a conseqüente incompreensão dos progenitores. Mantiveram o volume por quase uma centena de semanas na liderança das principais listas dos livros mais vendidos.

Graças ao sucesso das incríveis doze edições lançadas pela referida editora, as palestras de Escolástica passaram a ser muito requisitadas. Os espectadores, que agora lotavam os anfiteatros, ficavam fascinados pelas profecias apocalípticas de Peregrina sobre uma grande invasão alien e a subseqüente guerra entre extraterrestres e seres humanos. Sempre aparecia algum oponente com perguntas capciosas, mas Peregrina não tinha medo ou vergonha de içar o indicador no nariz do cético e “vomitar” a sua verdade.

A fama de Escolástica percorreu o país. Os seus mapas estelares tornaram-se objeto de estudo das principais faculdades de Playmobil, bem como de algumas instituições independentes espalhadas pelo mundo. Embora ninguém tenha apoiado a sua autenticidade, nenhum estudioso ousou desacreditá-los, e ainda hoje as informações contidas nos citados mapas permanecem como um completo mistério.

A comoção que se formou em torno de Escolástica fez os números de pessoas interessadas por ufologia se multiplicarem estrondosamente. Peregrina se sentia feliz porque agora as pessoas se dedicavam a buscar naves interplanetárias no firmamento. Todavia esta nova mania nacional não agradou nem um pouquinho à emissoras de TV, que perdiam vertiginosamente os seus antes considerados fiéis telespectadores.

Nesta época, após chegarem do trabalho, após um rápido banho, antes e depois do jantar e durante o horário considerado nobre, inclusive em dias de transmissão de jogos de Rugby pelo Campeonato Nacional, os playmobilenses não mais ligavam os seus televisores. Em todo o país as pessoas se dirigiam a locais com pouca iluminação artificial a fim de observarem o céu. Este evento não repercutiu em tantos avistamentos de OVNIS quanto Escolástica esperava, mas vale a pena citar algumas de suas imprevistas e interessantes conseqüências. 

Subitamente as pessoas descobriram o privilegiado céu playmobilense. Descobriram várias constelações, a exatidão do ciclo lunar, as manchas das crateras da lua em meio ao fascinante brilho prata, a retilínea trajetória dos satélites lançados pelo homem...

Dezenas de estrelas cadentes eram contadas e recebiam pedidos, inúmeros pontos brilhantes eram identificados e provocavam surpreendidos sorrisos, uma vastidão imensurável ilimitava os pensamentos e alimentava sonhos. Muito mais do que pela própria ufoplaymologia defendida por Peregrina, mas sem desrespeitá-la, os habitantes se encantaram pela infinitude do firmamento.

“Observem os discos voadores! Concentrem-se nos discos voadores!”, insistia Escolástica em suas palestras.

Observar discos voadores era a razão que levava as pessoas a se deitarem nas calçadas com os rostos voltados para o céu... mas aí se tomava consciência das estrelas (tão brilhantes!), da lua (tão majestosa!), das nuvens (tão perfeitas e subjetivas!). E tudo era de uma beleza deveras singular. Tão simples e disponível! Impossível explicar o sentimento que tomava o peito dos playmobilenses. Indizível!

O clima que se espalhou pelo país era de total harmonia. A fim de aproveitarem ao máximo a oportunidade de observar tão maravilhosas e diferentes belezas, patrões e empregados entraram em acordo e diminuíram a carga horária de serviços. Agora todo mundo podia dedicar as madrugadas à contemplação do céu.

As pessoas passaram a carregar diversos objetos consigo em suas noites de vigília. Levavam violões e outros instrumentos musicais. Havia grupos dos mais diversos estilos que formavam círculos pelo território nacional. Tocavam até altas horas, sem se esquecerem de observar o firmamento, as estrelas, a lua... Casais aproveitavam o clima para namorar e namorados formavam novos casais.

Também havia habitantes que preferiam contar histórias, lendas urbanas, contos improvisados no calor da hora ou narrativas lidas em voz alta a partir dos livros que se comprava ou tomava emprestado nas bibliotecas públicas. 

Outros acampavam com as suas famílias e passavam tranqüilos dias de contemplação na beira dos rios playmobilenses. O céu levou as pessoas a se depararem com outras coisas. Elas estavam ali o tempo todo, mas... 

Subitamente passava-se um bom tempo meditando a respeito do contorno de uma árvore, o vento atuando sobre os galhos, o brilho do sol incidindo sobre as folhas, o nascer do sol e o crepúsculo. O cantar das aves era saudado com reverência, seus hábitos eram observados com zelo, inspirador seu preciso e belo vôo rumo ao horizonte. O horizonte era magnífico: sugeria e possibilitava ilimitadas possibilidades.

Neste período os índices de produção artística cresceram espantosamente. Em contrapartida a sutil queda na produção industrial, assim como no fluxo do comércio, só podia ser considerada benéfica. E não interessa ao narrador citar as já conhecidíssimas vantagens de um decréscimo, por menor que seja, nos índices destes ignóbeis e redundantes nichos.

O número de ocorrências de crimes diminuiu consideravelmente. Os gráficos estatísticos que se referiam a acidentes de trânsito tomaram uma vertiginosa curva descendente. O consumo de álcool e bebidas alucinógenas, acompanhando as estatísticas do uso de outras drogas lícitas e ilícitas, como remédios antidepressivos, caiu pela metade. Evento similar aconteceu com o número de consultas marcadas com playmopsicólogos, astropsiquiatras, neuroplaymologistas e praticamente todos os ramos da medicina.

Assim os médicos podiam se juntar aos policiais e seus diminutos boletins de ocorrência, aos patrões e empregados e seu satisfatório acordo, aos empresários e suas módicas obrigações, à inspiração dos artistas e até mesmo aos criminosos sob pena, pois os carcereiros dos presídios de Santa Juliana também queriam contemplar o firmamento. Eles concederam aos presos o direito de passar as madrugadas nos pátios, a contarem estrelas cadentes, e deram início ao período em que menos rebeliões aconteceram nos complexos prisionais playmobilenses.

Caso quisessem recuperar os telespectadores e manter os patrocinadores, as emissoras de TV seriam obrigadas a tomar alguma atitude. Sequer havia notícias para que os âncoras dos telejornais lessem nos teleprompter’s!

Apoiadas pelo governo de Santa Juliana do Playmobil, que se mostrava muito preocupado com o declínio da arrecadação de impostos, as emissoras decidiram reagir. A pioneira e mais criativa emissora a lançar uma sigilosa campanha de recuperação de telespectadores, foi a Moputo Fox Bola Mundi, que sempre detivera os melhores índices de audiência, e costumava assinar os maiores contratos publicitários.

Sob o generoso patrocínio de uma fábrica de lunetas, binóculos e telescópios, a mencionada emissora contratou Peregrina Escolástica para uma entrevista com o seu maior entrevistador. Tratava-se de Asdrúbal Cimento Pedrinolento, nacionalmente conhecido como o apresentador do Trash People, um Talk-Show muito badalado em Santa Juliana do Playmobil. 

Asdrúbal Cimento Pedrinolento era reconhecido por seu tradicional ceticismo e agressividade. Poucos entrevistados saíam satisfeitos do seu programa, mas como o mesmo costumava monopolizar a audiência de milhões de telespectadores, as celebridades acabavam engolindo o orgulho próprio. Sujeitavam-se às maledicentes investidas do apresentador e às picarescas risadas da Platéia de Degenerados, como era chamada a platéia do Trash People.

Escolástica Peregrina enfrentaria um questionário sem precedentes. Ela não conseguia esconder a sua satisfação com o irresistível cachê que a emissora propôs “doar” ao Grupo de Estudos Estratosféricos Homenzinhos Verde-Rosa, mas só aceitara o convite para a entrevista por acreditar que as suas pregações sobre discos voadores e alienígenas vinham sendo profundamente distorcidas.

“As pessoas parecem idiotas a observarem o céu! Ficam cantando, conversando, contando histórias, osculando! Assim ninguém verá nave espacial nenhuma!”, comentava Escolástica.

Através da entrevista ao Trash People, Peregrina pretendia desfazer os mal-entendidos. Também planejava redirecionar o ímpeto das pessoas ao estudo ufoplaymológico, mas havia um obstáculo em seu caminho: a raiva de Asdrúbal Cimento Pedrinolento. O apresentador não gostava de abordar temas considerados abstratos em seu programa. Fora obrigado pelos produtores do mesmo a incluir Escolástica na pauta. Ele pensava em se vingar destruindo a moral da entrevistada. Mesmo sabendo que a audiência realmente andava em baixa e a entrevista poderia reconquistar os abduzidos telespectadores, indiferente à maciça campanha publicitária que se promoveu em torno do “confronto do século” entre o “cético e a abduzida”, Asdrúbal não desistiu de seus planos contra Escolástica Peregrina. 

Não se falava de outra coisa nas duas semanas que antecederam à entrevista e Cimento Pedrinolento estava ansioso por divertir a sua Platéia de Degenerados. Asdrúbal Cimento Pedrinolento nunca soube de toda a verdade, mas ele fora abandonado num orfanato quando contava com apenas dois anos de vida. Logo as freiras que trabalhavam no local conseguiram convencer um casal de meia-idade, extremamente religioso e austero, a adotar a criança.

Os castigos e surras marcaram a infância e o corpo de Pedrinolento. Aconteciam por qualquer motivo: sempre que o menino não conseguia controlar o riso durante uma missa dominical, sempre que chegava atrasado da escola, sempre que apresentava um boletim regular, sempre que o flagravam conversando com algum colega descendente de aborígines, etc.

Durante a adolescência de Asdrúbal, os conflitos com os pais adotivos tornaram-se ainda mais freqüentes, sobretudo após Cimento Pedrinolento descobrir que sentia atração por outros garotos. As mulheres simplesmente não o interessavam. Sem querer parecer maldoso ou banal, muito pelo contrário do avesso, e o narrador não está com paciência de se enveredar em satisfações, Asdrúbal se identificava com as mulheres e as desejava unicamente como amigas e confidentes.

Pedrinolento podia permanecer horas seguidas trancado no quarto, conversando os mais variados assuntos com uma mulher, e não sentir nada além de simpatia, amizade, compreensão. Por outro lado, os homens eram excitantes, eriçavam, estimulavam a sua imaginação. Asdrúbal se imaginava tocando, sendo tocado, lambendo...

Todavia ele não tinha coragem o bastante para assumir a sua homossexualidade. Asdrúbal nem ao menos sabia dizer com absoluta certeza se ele realmente era homossexual. Talvez os seus sentimentos fossem apenas reflexos de imagens concebidas a todo o instante e que jamais se concretizavam.

Incontáveis cenas de dezenas de surubas o assaltavam em qualquer circunstância. Calígula e suas festinhas, Sodoma e Gomorra, personagens Disney trepando com mangás eróticos. Asdrúbal não conseguia se concentrar em mais nada.

Malditos hormônios! Ele tinha que tomar alguma providência! Era o momento de exercer a sua exacerbada sexualidade. Pedrinolento não queria morrer virgem e decidiu testar as possibilidades. Primeiro Asdrúbal resolveu sair com algumas garotas. As transas aconteceram, mas ele não era capaz de se envolver ou gostar de nenhuma mulher.

Uma vez facilmente estimulado, o corpo responde. Mas todos os acontecimentos, desde que Pedrinolento saía de casa, o cinema, a lanchonete, a boate, o motel, o preservativo na lixeira, sucediam-se sem nenhum sentimento a permeá-los. Gestos autômatos, carinhos programados como o software de um computador, carentes de alma, vazios da porra!

As pessoas certamente esperavam encontrar muito mais numa relação do que aquela fria troca de fluídos, falsos gemidos, ânsia pelo fim. Por mais que Asdrúbal torcesse pelo sucesso de seus encontros com indivíduos do sexo oposto, por mais que ele desejasse se adaptar ao tipo de relacionamento que a sociedade considerava “normal”, moralmente aceitável, um “encontro natural”, temente às “regras de Deus”, Pedrinolento continuava devaneando com musculosos braços a lhe envolverem o pescoço, abraços um pouco rudes, meio sem jeito, pêlos roçando-lhe as costas.

Era chegado o momento de Asdrúbal sair com homens. E se por acaso a mesma sensaboria das transas com mulheres deprimisse o antes e o depois, ele estava disposto a consultar algum playmopsicólogo, um pajé curandeiro descendente de aborígines ou um profissional do ramo playmolístico, pois pensar em sexo o tempo todo, e ao mesmo tempo não achar nenhuma graça na prática, portanto, ao invés de uma questão de gênero, tratar-se-ia de um problema patológico.

A grande dificuldade em se sair com homens se baseava no fato de que não existiam muitos lugares cujos freqüentadores simpatizassem com manifestações de afeto homossexual. Asdrúbal nunca fora amigo de nenhum homossexual, mas testemunhara muitos sendo maltratados, chacoteados, humilhados, escorraçados. Tais mostras de ódio aconteciam até mesmo em lugares públicos, como praças, escolas, teatros.

Pedrinolento não pretendia desistir de encontrar um caminho, mas para alcançá-lo sem constrangimentos, a discrição se fazia necessária. Ele não podia esquecer dos seus pais. Eles eram bem conhecidos, viviam rodeados de amigos jornalistas, fotógrafos, empresários. Facilmente chegaria aos seus ouvidos a notícia de que o filho andava se atracando a marmanjos.

Asdrúbal aguardou ansiosamente a melhor oportunidade surgir. Seis meses se passaram até a ocasião em que o motorista da família se preparava para conduzir os patrões ao aeroporto. Eles tomariam um avião com destino a uma cidade do exterior onde certa convenção de religiosos seria realizada. Cimento Pedrinolento custou a convencer os pais de que não poderia acompanhá-los na viagem. Precisou inventar a desculpa de que ele se encontrava em semana de provas no colégio.

Assim que os progenitores seguiram os empregados descendentes de aborígines, que carregavam a vasta bagagem escada abaixo, Asdrúbal telefonou para um rapaz que ele conhecera dois meses antes. Convidou-o para tomar vinho em sua confortável casa, mais especificamente em seu quarto, onde dificilmente alguém os descobriria a fim de assumir sem nenhum pudor uma latente inclinação para a fofoca.

O primeiro beijo do casal aconteceu após a segunda taça de vinho. Asdrúbal ficou com as pernas bambas. Era excitante sentir os raros e espetados pêlos da barba do adolescente. Logo os dois estavam trocando carícias, sentados na beirada da cama de Cimento Pedrinolento.

Era isto! A respiração ofegante, o coração batendo descompassado, os gestos seguindo o instinto, sem controle. Era tudo muito diferente das transas com mulheres! Definitivamente ele era homossexual. Esta confirmação se deu em meio ao denso e envolvente clima, aos carinhos, suor.

Tudo teria sido perfeito se o pai de Asdrúbal não tivesse esquecido algum pertence e voltado a fim de apanhá-lo. Teria sido perfeito se o pai não tivesse escutado estranhos ruídos partirem do quarto do filho e se expandirem pela casa. Pedrinolento não percebeu a porta se abrindo. Estava muito distraído experimentando inéditas sensações. Sequer notou o intruso imobilizado pensando se as suas vistas não o estariam enganando.

Talvez aquela pouca vergonha pornográfica não passasse de um pesadelo. A pederastia era um dos maiores crimes contra as leis de Deus! Não podia ser o seu filho o protagonista daquelas cenas grotescas, o jovem de joelhos no chão, curvado sobre a genitália de outro homem. O pai demorou a se convencer da verdade e só então reagiu.

Várias explicações passaram pela cabeça de Asdrúbal após o grito da indesejável e temível testemunha. Ele queria dizer convincentes frases contra o preconceito, discursos nada retrógrados, odes às liberdades pessoais, mas estava com a boca ocupada. Atônito permaneceu, inerte, irritado com a própria incapacidade de esboçar alguma reação.

O pai retirou o espesso cinto da cintura e partiu em direção ao rapaz que rapidamente murchava entre os lábios de Asdrúbal. Expulsou o jovem desferindo-lhe diversas cintadas. Enquanto isto Pedrinolento se vestia e escondia o rosto no travesseiro. Alguns minutos depois os passos do progenitor voltaram a ecoar pelo quarto. 

Faltou coragem a Asdrúbal para encarar o pai e expor o seu ponto de vista. Cimento Pedrinolento estava ciente de que nenhuma palavra que dissesse evitaria os turbulentos dias que estavam por vir. Explicações são inúteis quando o ouvinte tapa os olhos e os ouvidos à verdade, e se encerra em pré-históricas idéias, mais herméticas do que uma pedra. Nem mesmo água-mole venceria as resistências daquele cabeção.

“É com esta boca imunda que você beija a sua mãe? É com esta língua que pede benção a seu pai? São estas as mãos que se juntam para orar a Deus?”

A primeira atitude do pai, após as conseqüências do flagrante, foi adiar a sua viagem durante algumas horas. Ele levou o filho ao pároco da igreja que a família costumava freqüentar. Queria de qualquer maneira que Asdrúbal confessasse os seus pecados e recebesse a absolvição.

Pedrinolento relutou em fazer a confissão. Pra começar ele não se sentia culpado ou pecador. Além do mais, seria bastante desagradável revelar detalhes de sua intimidade a um completo desconhecido. “Perdoa-me padre porque eu pequei! Perdoa-me por sentir vontade de dar a bunda! Perdoa-me por ter dado uma chupadela no cacete de um homem!” Como dizer este tipo de coisa a um padre? Seria verdadeiramente ridículo e constrangedor!

Asdrúbal Cimento Pedrinolento nunca partilhara dos sentimentos de devoção dos pais. De uma maneira geral ele considerava os religiosos umas pessoinhas bastante hipócritas. Com as suas dogmáticas e resignantes fantasias da perfeita moral, distorcendo e acabando pra valer com as verdades reveladas pelos chamados profetas, de quem roubaram os nomes em prol de causas egoístas; escondendo o corpo sob o manto de uma conduta falida e o rosto sob a falsa máscara secular de porta-vozes dos céus, viviam confortavelmente instalados em mansões e praticavam toda espécie de “sacrilégios” amparados pelas vistas grossas de seus “superiores”.

Todavia estes não eram os principais motivos para que Asdrúbal se sentisse tão deprimido com a confissão imposta pelo pai. Acontece que ninguém tinha nada a ver com a sua recém confirmada homossexualidade. Tratava-se de um desrespeito contra a sua própria pessoa, mas ainda assim Pedrinolento conversou com o padre. Em seguida acompanhou o pai até o aeroporto e subiu no avião que os conduziria até a assembléia religiosa.

“Será uma excelente oportunidade! Muitos dos congressistas já curaram fiéis infectados pela pederastia. Certamente o ajudarão a se livrar desta desgraça!”, disseram os pais.

Não foi nada fácil lidar com o pai no decorrer das palestras, que aconteceram num luxuoso auditório com capacidade para quinhentas pessoas. Após as explanações, que giraram em torno de assuntos como o pecado original, o inferno, o julgamento final, etc., e durante o espaço de tempo reservado às dúvidas dos espectadores, por mais que a pergunta fugisse do tema em pauta, Asdrúbal ouvia a recorrente interrogação do pai sobre os percalços de se ter filhos homossexuais.

“Qual deve ser a atitude dos pais ao descobrirem que o seu filho está se entregando às práticas da pederastia?”

Naquele momento Asdrúbal tornava-se o centro das atenções. Os olhares dos senhores e senhoras, maquiadas até a medula, vestindo roupas de linho que lhes custaram uma fortuna, etiquetas à mostra, sempre a observarem e comentarem o comportamento alheio e as gafes no vestuário dos vizinhos, imediatamente recaíam sobre o constrangido Cimento Pedrinolento.

Circunstâncias ainda piores aconteceram no decorrer do coquetel que os organizadores do evento ofereceram aos participantes durante a última noite da convenção. O pai de Asdrúbal o apresentava a qualquer pessoa, desde que exibisse o impoluto semblante do “bom conselheiro espiritual”, como “o garoto envolvido pelos pederastas”. A seguir se estendia um longo diálogo, permeado por mil e uma sugestões de pretensas maneiras de se curar a homossexualidade.

“Os gays dominarão o mundo e lotarão as dependências do inferno! É melhor você sair dessa vida enquanto ainda é tempo! Tenha respeito por Deus nas alturas!”

Asdrúbal ouviu dezenas de conselhos, sempre os mesmos, como se ele tivesse acordado numa fria manhã de inverno, e subitamente a idéia de se tornar homossexual o tivesse possuído. “Hoje não estou me sentindo muito bem! Acho que vou sair do armário pra ver se melhoro!”

Pedrinolento custou a se livrar de dois senhores muito bem vestidos com seus ternos lustrosos, bíblias debaixo dos braços, copos de whisky na mão e um olhar que se equiparava pela lascívia. Eles queriam levar Asdrúbal até o segundo andar da mansão onde o coquetel murrinha acontecia. Pretendiam se fartar do corpo do jovem se trancando em um dos quartos daquela residência. Sempre que tinham a oportunidade, eles despiam a máscara de pilares religiosos e patrocinadores de dioceses, escapavam das esposas e caíam nos braços de um guapo viril. Adoravam um rapaz cabeludo como Asdrúbal.

Depois de acontecimentos tão dolorosos, superados sob o mais absoluto silêncio, Cimento Pedrinolento resolveu guardar a sua homossexualidade no armário. Ele decidiu que nunca mais se relacionaria com ninguém. Após um ano de razoável quietude, os progenitores chegaram à conclusão de que o filho se curara. É desnecessária uma descrição delongada dos dias que se passaram antes que a situação entre Asdrúbal e os seus pais se tornasse insustentável. Os últimos viviam apresentando plácidas garotas da High Society a Pedrinolento. Tinham a esperança de que o filho se apaixonasse pela herdeira de uma tradicional família milionária playmobilense. O conveniente casamento seria marcado às pressas. Logo viriam os netos a fim de espantar de uma vez por todas o fantasma sem-vergonha do multicolorido universo gay.

Entretanto Asdrúbal nunca se interessava pelas adolescentes apresentadas. A cada nova tentativa frustrada, os seus pais sentiam-se profundamente decepcionados, começavam a discutir, mas logo se conformavam. Eles sabiam que o filho também não mantinha relacionamentos com outros homens. Conservavam as esperanças. Pelo menos o bom nome da família e os preceitos divinos estavam preservados.

“Filhos são mesmo uns ingratos! Mas a gente não pode desistir: cedo ou tarde ele arrumará uma namorada!”, dizia o pai após um outro fracasso acumulado em sua improdutiva carreira de alcoviteiro.

Foi justo a última garota apresentada que indiretamente derrubou por terra a indiferença de Pedrinolento. Mais especificamente o seu irmão, Gepeto Torniquete, moreno de um metro e setenta e cinco, olhos expressivos, uma voz rouca que impregnava de convicção todas as palavras que a perfeita boca moldava, independente do fato de Torniquete não ser lá muito inteligente ou seguro de si.

A sensibilidade de Gepeto Torniquete, sua compreensão muda, sua ingenuidade expressa no modo de enxergar as pessoas e o mundo constituído por elas, sempre crédulo, sempre esperançoso e irremediavelmente desarmado, tocaram os sentimentos de Asdrúbal de uma maneira que ninguém jamais havia tocado. Era a primeira paixão de Pedrinolento.

Se antes de conhecer aquele que lhe inspirava um sentimento ao mesmo tempo delicado e arrebatador, já estava difícil dissimular a sua verdadeira personalidade, como um leão preso numa grade, cuja crescente ira espera apenas a primeira boa chance de arrancar com uma única mordida o braço do domador; agora que a moça, também apaixonada, vinha constantemente à sua casa, sempre acompanhada por Gepeto, Asdrúbal se encontrava em grandes apuros.

Tornara-se impossível renegar os seus sentimentos. Cimento Pedrinolento tinha certeza de que os mesmos eram correspondidos. Ele ansiava por algo além dos olhares que trocava com Gepeto. Queria navegar por aquele mar desconhecido, matar a sede, amar, servir, receber, viver... Não podia mais ocultar de si mesmo e do mundo algo que se dava tão naturalmente e evocava indizíveis belezas.

No momento em que Asdrúbal resolveu não mais resistir, logo após a saída da escola, numa praça onde Gepeto o estava esperando, ciente de que Pedrinolento sempre tomava aquele caminho, e assim que eles se declararam igualmente apaixonados e se beijaram, sem se importar com nada além de beijos e abraços, infelizmente um amigo da família de Cimento Pedrinolento passou dirigindo o seu carro esporte com rodas cromadas. O indivíduo estacionou o valiosíssimo automóvel pela certeza de que um dos viados que se agarravam em plena praça pública era mesmo o filho de quem ele estava pensando.

“Não é possível!”, exclamou coçando os olhos, a fim de se livrar de um possível flashback dos chás de cogumelos ou dos ácidos lisérgicos sintéticos que ele tomara na juventude.

Comprovada a sua suspeita, o sujeito não quis nem saber de esperar. Apesar de ele ser amigo do pai de Asdrúbal, uma amizade que se consolidara ainda nos tempos da faculdade, a idéia de que o último era bem mais rico e influente sempre o incomodara. Em menos de dez minutos ele chegou à invejada mansão dos Pedrinolentos.

Ao ler nas feições do amigo o terrível impacto de descobrir que o filho era gay, e vivia pelas ruas de beijos e abraços com machos, por pouco o portador da notícia não dissimulava o seu contentamento. Embora estivesse se divertindo enormemente e custasse a conter o sorriso, ele apresentou pesares e partiu, a fim de deixar o desafortunado pai sozinho com o seu suplício.

Assim que adentrou a mansão, contente como nunca, os mais recentes acontecimentos a lhe devanearem os pensamentos, Asdrúbal Cimento Pedrinolento recebeu um estrondoso tapa na face direita. A pancada ressoou pela extensão da sala de visitas. Então o pai resolveu rasgar as roupas do filho. Não saciado, acertando o corpo de Asdrúbal com o grosso cinto de couro que lhe mantinha as calças na cintura, o pai arrastou Cimento Pedrinolento até a garagem e o obrigou a entrar num dos três magníficos carros importados. A seguir dirigiu até uma movimentada avenida do centro de Moputo Krivatlinclável.

Por uma incrível coincidência, o veículo foi estacionado em frente a uma academia de ginástica. Os freqüentadores do lugar a toda a hora entravam ou saíam do recinto e aumentavam o ódio do progenitor. Principalmente os homens, musculosos e suados, fazendo o pai imaginar grotescas cenas em que Pedrinolento era montado como uma potranca qualquer, mas também as saradas mulheres, cujos glúteos não interessavam nem um pouco a seu delicado filho.

Ainda nu, sentindo uma vergonha indescritível, Asdrúbal foi obrigado a caminhar através da multidão. As pancadas que o pai continuava a lhe acertar doíam pra valer, sobretudo porque o seu corpo já se encontrava bastante marcado, mas as risadas e brincadeiras dos transeuntes eram muito mais difíceis de suportar. Doíam bem mais. Faziam Asdrúbal chorar com a cabeça baixa. Faziam-no sentir vontade de morrer.

“Você não queria dar a bunda? Pois agora terá a sua chance! Venham comer a bunda do meu filho! Ela é quase zero quilômetro! E é de graça!”, gritou o pai, enquanto forçava a nuca de Asdrúbal a fim de que ele se mantivesse na mesma posição de Toradoida, o poodle de Escolástica Peregrina.

Naquele momento as risadas eram histéricas e sobrepujavam os soluços de Cimento Pedrinolento. Asdrúbal pensava que jamais teria coragem de voltar a sair na rua. Jamais perdoaria o pai ou qualquer outro ser humano. Não havia ninguém digno naquela avenida para ajudá-lo a sair daquela situação? Então as pessoas só estavam interessadas em se divertir, mesmo que fosse às custas dos sofrimentos alheios, e que se explodisse o mundo ao redor? Pois dali em diante Asdrúbal não daria um único suspirar inspirado por sentimentos de piedade por qualquer que fosse o ser humano.

Dali em diante Cimento Pedrinolento só sentiria ódio. Mágoa e ódio e vontade de assassinar. Vontade de fazer sofrer. Vontade de ratificar e provar claramente, todos os dias, a verdade de que todas as pessoas são podres. E isto sem exceções, pois as modernas exceções sempre se edificam sobre o alicerce da hipocrisia e da ostentação. Ninguém merece compaixão ou solidariedade e coisas do tipo. Os seres humanos merecem unicamente o esgoto para o qual já caminham a passos largos, cegos e surdos, indiferentes... néscia obstinação!

De repente o pai soltou os cabelos e a nuca de Asdrúbal e cessou de lhe desferir cintadas e gritar para a multidão. Permaneceu tão imóvel quanto Pedrinolento, que não sabia ao certo se o pai lhe dera permissão de se levantar e esconder a nudez no carro. As pessoas continuavam a passar com as suas risadas comedidas, escandalosas, exóticas, sarcásticas, estupefatas, estúpidas... Asdrúbal apenas voltou o rosto e se fixou nos olhos do progenitor.

“Nunca mais volte para a casa. Vire-se sozinho! Não procure ninguém da família. Avisarei a todos e ninguém apoiará a sua falta de vergonha. Desapareça de nossas vidas! Para nós será como se você estivesse morto. Você morreu! Entendido?”, disse o pai.

O pai ligou o carro e se foi, levando junto de si, para sempre, a vida de Pedrinolento como ele a conhecia. Asdrúbal se viu sozinho na multidão. Agora ele não contava nem com as palavras vexatórias e pancadas do pai. Se não fosse pela iniciativa de uma senhora, que trabalhava numa confecção das redondezas e acompanhara todo o acontecido, provavelmente Pedrinolento teria sido preso por atentado ao pudor. A senhora emprestou uma troca de roupa prêt-à-porter a Cimento Pedrinolento. Asdrúbal não a agradeceu. 

“Ela também é culpada! Por que só agora ofereceu seus préstimos?”, pensou. 

Vestiu a roupa em plena calçada e saiu caminhando. A sua mente trabalhava com tanta lucidez que Pedrinolento chegou a se espantar. Ele caminhou durante toda a noite. Pensando, passando, pensando até chegar a importantes conclusões que norteariam os seus dias futuros.

Asdrúbal tomou a decisão de jamais voltar a se envolver com alguém. Ninguém merecia amor. Quando muito merecia desprezo. O pai, a mãe e toda a cambada de hipócritas queriam que ele desaparecesse, não é mesmo? Queriam que ele sumisse a fim de que as ilusórias imagens do mundo perfeito, onde eles imaginavam viver, não fossem manchadas por sua factual e incômoda presença, não é verdade? Pois eles teriam que suportá-la de qualquer maneira!

Asdrúbal resolveu tornar-se astro da TV. Transformar-se-ia na mais famosa figura televisiva playmobilense, invadiria as casas dos habitantes, obrigando-os a se depararem com a sua pessoa através dos programas, revistas, jornais... Cimento Pedrinolento não pensava em convencer os telespectadores sobre o seu talento e simpatia. Queria que eles se engasgassem de susto e morressem. Sobretudo os seus parentes.

Ele conseguiu emprego numa pequena emissora de TV com sede em Moputo Krivatlinclável. Começou a trabalhar como office-boy e logo alcançou o posto de diretor de programação. Criou e apresentou um programa de entrevistas extremamente polêmico, que fez de Asdrúbal uma notoriedade nacional. Depois assinou um rendoso contrato com a principal emissora de Santa Juliana do Playmobil. Transformou o então desconhecido Trash People no maior fenômeno de audiência de todos os tempos.

Os degraus galgados por Pedrinolento em direção ao topo do edifício chamado fama custaram-lhe caro. Deitar-se com diretores, produtores, atores, empresários, patrocinadores; atropelar os que se colocavam no seu caminho, trapacear, roubar, chantagear... Já estamos mesmo mergulhados na sordidez e não faria nenhuma diferença citar detalhadamente esse sem-número de coisas. Entretanto o narrador encontra-se de saco cheio de todo esse papo-furado.

Todos nós sabemos o que acontece neste mundo de ilusões que criamos com o nosso egoísmo. Nada fazemos em prol do melhor em todas as circunstâncias porque nos acomodamos. Gostamos desta espécie de regozijo suíno no qual nos lambuzamos. Não nos apetece sair da inércia a fim de queimar as calorias de nossos traseiros gordos.

Alguns anos se passaram e o que Asdrúbal considerava impossível aconteceu. Os níveis de audiência do Trash People baixaram vertiginosamente. Como estratégia para recuperar os telespectadores, a emissora marcara uma entrevista justo com a pessoa cujas patacoadas direta ou indiretamente haviam provocado o fenômeno.

Pedrinolento não gostava de entrevistar indivíduos como Peregrina Escolástica. Ele acreditava que o Trash People poderia ser confundido com um extravagante palco de lunáticos. No entanto as massivas campanhas publicitárias propagaram a notícia sobre a entrevista por toda Santa Juliana do Playmobil e boa parte do mundo. Asdrúbal Cimento Pedrinolento acabou se conformando e até mesmo incentivando a idéia. Afinal de contas, ele teria mais uma oportunidade de mostrar o rosto e destilar o seu ódio, constrangendo mais uma personagem em cadeia nacional e via satélite para diversos países estrangeiros.

Talvez fosse a maior e melhor oportunidade de todos os tempos, ratificada pela grande expectativa popular que o evento monopolizava, cumprindo o objetivo das partes interessadas: levar as pessoas de volta às poltronas e sofás e magnetizar-lhes os olhos e pensamentos através da tela dos televisores, para que elas nunca mais voltassem a se perder por bobagens.

No dia da entrevista, um sábado de intenso calor, recorde de temperatura que incansável e conscientemente a modernidade quebrava a cada dia, Pedrinolento recebeu Escolástica no Trash People com uma aparente cordialidade. Acomodou-a no simpático estofado de três lugares situado a poucos centímetros de sua mesa. Asdrúbal apresentava o sorriso que a Platéia de Degenerados estava acostumada a ver. Tratava-se de duzentas pessoas facilmente escolhidas a dedo por seu ácido e perverso humor. Estes espectadores só não estavam habituados a testemunhar o seu ídolo maior destruir um convidado com tão desmedido ímpeto.

Logo após a realização de um sorteio, que premiou um espectador da Platéia de Degenerados com um implante peniano de silicone ofertado por um dos patrocinadores do Trash People (graças ao ato cirúrgico e à súbita fama o felizardo premiado se tornaria o maior e mais bem remunerado astro do Poleiro Pornô), o apresentador partiu para a ofensiva. Geralmente Asdrúbal Cimento Pedrinolento distribuía os seus irônicos ataques com equilíbrio no decorrer dos blocos. Ele costumava abrir certo espaço para a resposta dos entrevistados, mas aquele não era um programa como outro qualquer.

Escolástica só teve tempo de cumprimentar o apresentador e a platéia. Além das constantes interrupções dos anúncios dos patrocinadores, sobretudo da fábrica de lunetas e da clínica de cirurgia playmoplástica, sempre que Peregrina esboçava alguma explicação sobre alienígenas, discos voadores, viagens interdimensionais, Asdrúbal a cortava com seus bordões e infindáveis seqüências de chacotas. 

As piadas eram maldosas e humilhantes. Pedrinolento parecia um animal selvagem brincando com a sua presa a fim de prepará-la para o subseqüente devorar. Asdrúbal não perdia a deixa de nenhuma frase solta de Peregrina. Então o som da voz da abduzida era inteiramente encoberto pelas gargalhadas, assobios, aplausos e demais ruídos escachados emitidos pela Platéia de Degenerados. Os espectadores estavam extasiados com a melhor e mais devastadora atuação de seu ídolo.

Depois daquela noite, Escolástica jamais voltaria a aparecer na televisão ou em qualquer outro veículo de mídia. Continuava a dar as suas palestras por todo o território playmobilense, mas agora os espectadores se resumiam a um ou outro desavisado interessado em ufoplaymologia, bem como aos costumeiros simpatizantes do Grupo de Estudos Estratosféricos Homenzinhos Verde-Rosa.

Após as palestras, Escolástica Peregrina sempre caminhava até o hotel onde estava hospedada. Ela não sabia dirigir e não gostava de pegar caronas. Antes de entrar no quarto, Escolástica invariavelmente ficava alguns instantes parada a observar o céu. Sentia-se profundamente incompreendida e injustiçada. Perguntava-se por que os alienígenas não vinham buscá-la de uma vez por todas. Sozinha, os pensamentos devaneando sobre viagens interplanetárias a bordo de discos voadores, ela se trancava no aposento a chorar.

Por outro lado, Asdrúbal Cimento Pedrinolento sabia e gostava de dirigir o seu possante automóvel importado com vidros filmados. Todavia caminhar durante a madrugada lhe proporcionava um prazer sem igual. Era madrugada quando Asdrúbal conseguiu se livrar dos agraciamentos e tapinhas nas costas, após a bem sucedida entrevista com Peregrina. Só então ele pôde voltar para casa.

Como sempre as ruas estavam tranqüilas, principalmente agora que o Trash People conseguira aprisionar as pessoas de volta a seus aparelhos de TV. Era recompensador ouvir o distante som dos televisores ligados, a exibirem os filmes de todas as madrugadas, pelo regozijar dos insones e malucos e pelos lucros dos patrocinadores menos abonados.

O “efeito Escolástica” desvanecera devido à brilhante apresentação de Asdrúbal. Enfim os playmobilenses deixavam as baboseiras de lado e retomavam as suas vidas normais. Retomavam as exibições televisivas, o horário integral de trabalho, o consumo desenfreado, as deliciosas bebidas alucinógenas, os imprescindíveis comprimidos farmacêuticos, as consultas médicas, os acidentes de trânsito, os assaltos, assassinatos, rebeliões...

Entretanto Cimento Pedrinolento não estava contente apenas por ter cumprido o seu papel. Ele realmente cumprira, restabelecera a ordem capitalista das coisas, restabelecera os lucros das emissoras, empresas, governos. Garantira a maciça audiência da grande final do Campeonato Nacional de Rugby. Mas o motivo do seu contentamento envolvia características mais pessoais. Era o mesmo motivo que o impulsionava a suceder monótonos passos todos os dias, caminhando sorrateiro na madrugada, pelas ruas de Moputo Krivatlinclável.

Caminhando vagarosa e tranqüilamente e imaginando os pensamentos que seus pais, amigos, playmobilenses, a humanidade, hipoteticamente estariam tendo a seu respeito, Asdrúbal Cimento Pedrinolento não era capaz de considerar o sucesso por si só. Ele não percebia nem ao menos a suave brisa que lhe soprava os cabelos, nem mesmo após um dia de intenso e sôfrego calor. Asdrúbal passava indiferente às árvores que entoavam as suas canções, ao brilho da lua cheia, às estrelas a irradiarem sua luz e às estrelas a caírem; ao silencioso e significativo firmamento sobre as nossas cabeças.

“Ah!, meu pai! Ah!, minha mãe! Mais um dia em que os obrigo a se depararem com o seu filho viado!”, dizia baixinho, temendo alguma presença oculta, mas rindo largamente após a confirmação de sua incógnita num volver de vistas."