INTRODUÇÃO

Abaixo seguem a Epígrafe e o Prefácio na íntegra para apreciação:


De minhas alturas, eu contemplo as nações 
E as vejo em cinza converterem-se; 
Tranqüila é a minha morada em meio às nuvens; 
Aprazíveis os vastos campos do meu repouso. 
(Henry David Thoreau)


"Cansada de se arrastar pela casa e fechar as janelas que o vento insistia em abrir. Cansada de ouvir o barulho da chuva, gotas no telhado, quintal, a enxurrada. Cansada do ruído das fortes ondas à distância... Cansada, grávida! 

O marido podia sair todas as manhãs para o trabalho e só voltar à noite. Pelo menos ele podia ver o mar. Via pessoas e não apenas um reflexo disforme no espelho. Ele podia conversar, enquanto ela, Luíza, grávida, inchada, pesada, mal-humorada, passava o tempo todo trancada em casa a escutar seus próprios murmúrios. 

E como chovia! Há décadas a estação das chuvas não era tão rigorosa. A água só parava de cair durante alguns escassos minutos no decorrer dos dias. As tempestades não seriam problema se não fossem as malditas recomendações do médico de Luíza. Antes da gravidez ela adorava esta época do ano. O aconchego do lar, lareira acesa, sopa fumegando no prato, um bom vinho resfriando no balde, fazer amor... 

Quando criança Luíza adorava enfrentar a ventania e chegar até a praia. Fazer silêncio diante do mar revolto, areia molhada, céu acinzentado. Quem diria que justamente o hábito de não se deter perante as intempéries levaria Luíza à situação em que ela se encontrava? 

Se Luíza tivesse se contentado em buscar o açúcar no mercado! Quis chegar até a praia! Quis caminhar, caminhar, caminhar... Estava no quinto mês de gestação. A barriga se destacava do corpo. Gêmeos! Imagine só! Um passo em falso nas escorregadias ruas cobertas de areia levou Luíza diretamente ao pronto-socorro de uma cidade vizinha. 

Nada muito sério. Somente a expressão carregada de Juarez da Conceição, o marido, além das broncas das duas famílias. Sogro, sogra, madrasta, pai. Luíza achou engraçado que eles ficassem tão nervosos. 
“Até parece que vocês é que estão com gêmeos na barriga!” 

Luíza só desfez o sorriso dos lábios quando os médicos lhe decretaram repouso absoluto. Como viver sem os seus passeios à beira-mar? Como se abster das transas por toda a casa? Luíza se sentiria numa prisão! A solidão seria insuportável! Ela já não tinha muitas amigas. Havia Maria, Clara, Tereza, mas as chuvas emudeceram as linhas telefônicas e Juarez não gostava muito que as pessoas a visitassem. 

Das deliciosas refeições que Luíza preparava, bem como da casa bem arrumada, roupas lavadas, Juarez não tinha reclamações. Mas quando suas amigas se dispunham a enfrentar a chuva a fim de visitá-la, a reação do marido era bem diferente. Luíza não dizia uma única palavra quando ele se reunia com os amigos após o trabalho a fim de beber cervejas e jogar bilhar. Todavia era obrigada a ouvir a mesma frase sempre que ele se deparava com suas visitas. 
“Lembre-se das recomendações dos médicos!” 

Luíza achava muito desagradável quando alguém usava a sua gravidez como desculpa para cerceá-la. Acontece que o marido jamais aprovara as suas amizades. Só que agora ele se portava como se fosse o impoluto mestre dos argumentos. 
“Se estas mulheres realmente fossem suas amigas, deixariam você descansar!”, ele dizia. 

Ela preferia manter o silêncio. Luíza detestava discussões. Sentia-se muito cansada depois de qualquer bate-boca. Avelino, seu pai, vivia lhe aconselhando a defender seus pontos de vista com mais veemência. Logo em seguida, porém, sem nenhuma queixa, cumpria os desmandos do patrão ou dizia “sim” a todas as exigências de Joana, a madrasta. 

Luíza perdera a mãe antes de completar 1 ano de idade. Quando tinha 5 anos o pai casou-se com Joana. Tratava-se de uma vampira nata, voraz monopolizadora, que não aceitava nada menos do que o centro das atenções. A fim de não contrariá-la Luíza acabou assumindo um papel secundário perante a própria vida. Com o tempo ela aprendeu a gostar da madrasta, mas como se tornar um adulto com firmes opiniões crescendo ao lado de tal personalidade? 

Quando se casou Luíza teve a certeza de que jamais deixaria de ser uma mera coadjuvante na peça que os demais protagonizavam. Ninguém esperava que ela se tornasse mais do que um eficiente instrumento reprodutor. Todos queriam descendentes. Queriam a falsa sensação de continuidade e imortalidade. Desejavam o crescimento da família e para isto Luíza bem que servia. 

O marido não era diferente dos outros. Vivia exaltando a cidade onde vivia e difamando o mundo ao redor. Crescera ouvindo o pai dizer que as empresas de transporte da família seriam administradas por ele tão logo ele se tornasse adulto. Terminou os estudos no exterior sentindo-se deslocado, como um renitente peixe de farta cauda fora do seu minúsculo aquário. Depois cumpriu os sonhos dos pais e assumiu as tais empresas portuárias. 

Juarez da Conceição e Luíza se conheciam desde pequenos. Cursaram o ensino fundamental na mesma escola. Brincaram de pega na praia mais longínqua, pularam as mesmas cordas, nadaram e venceram as mesmas ondas. Ele nunca esteve apaixonado por ela, mas era natural que se casassem. Era natural um homem com trinta anos nas costas e um bom emprego no currículo constituir um lar estável com uma pessoa confiável. Era natural conceber tantos filhos quantos fossem possíveis. 

Tudo o que ele esperava de Luíza é que ela não deixasse de manter a casa limpa. Queria comida quentinha no prato e as pernas abertas sem nenhuma queixa. Tudo bem, Luíza era meio esquisita. Às vezes se perdia em pensamentos com um sorriso alucinado nos lábios, mas fazer o quê? Nada era perfeito! Pelo menos ela não o desobedeceria... 

Outra vez Luíza foi obrigada a se levantar do sofá, onde lia uma revista de variedades, a fim de fechar uma janela que se abrira fazendo um barulho infernal. Ela cansara de pedir ao marido para consertar as trancas. Juarez sempre se esquecia de seus pedidos. Depois que desse à luz aos gêmeos, ela mesma pretendia resolver o problema. 

No caminho até a janela, subitamente Luíza sentiu uma aguda dor no ventre. Faltavam alguns dias para que se internasse e se submetesse à cesariana. Será que os gêmeos cansaram de esperar? Podiam ao menos aguardar o fim das chuvas! Entretanto, no momento em que fechava a vidraça... Ufa! Luíza curvou-se sobre o próprio abdômen e soltou o corpo numa poltrona. 

Era certo: certamente chegara a hora! A roupa íntima e o vestido de Luíza estavam úmidos. Ela levou os dedos à genitália e os trouxe de volta ao campo de visão. O líquido não era transparente, não era turvo, mas vermelho. 
“É sangue! É sangue! É...” 

A dor se intensificava a cada instante. Instintivamente ela foi até o telefone. Mudo! Merda! O jeito era tentar chegar ao porto ou invadir a casa de algum vizinho e pedir ajuda. Gritar por socorro. Rezar para que aquela dor insuportável desvanecesse. Rezar para que cessasse o sangramento que escorria em filetes e a incomodava no interior das coxas. 

Luíza abriu a porta da frente e começou a caminhar. Desesperada, despenteada, cansada. Havia uma residência entre a sua casa e a praia. Uns cinqüenta metros a separavam de tal construção. Ela não precisaria caminhar demais e quem negaria socorro a uma mulher naquela situação? Infelizmente ninguém se encontrava em casa. Será que haviam se cansado do índice pluviométrico e resolveram se mudar? Maldita a hora que escolheram para tirar umas férias! 

Havia outras casas mais distantes, porém, talvez fosse melhor se dirigir direto ao porto. Ela precisava encontrar Juarez. Que merda de dor! Que saco! Se ela soubesse que um dia estaria de joelhos na calçada, toda encharcada, arrepiada de frio, mamilos enrijecidos e seios delineados pelo leve vestido grudado no corpo, jamais teria se deixado engravidar. E se os métodos contraceptivos por acaso falhassem... Que se dane! Já que os familiares queriam descendentes, por que não adotavam uma criança? 

Luíza conseguira se levantar no momento em que a dor diminuiu um pouco. Livrando o rosto dos cabelos molhados, encolhendo-se por causa do vento e se assustando com os raios e trovões, ela seguiu em frente. Luíza já avistava o fim da rua e as águas do oceano. Porra! A hemorragia não cessava de verdade! Ela estava ficando sem forças. A sensação era doce. Sonolência. 

Ela resolveu se deitar na calçada a fim de descansar durante um ou dois minutos. Ah!, era tão bom! A chuva molhando o seu rosto como outrora molhara! Lavando a alma! Tão carregada! O céu por detrás das nuvens... Carregadas! Coragem para dormir sem pensar em nada. Coragem... sem conseqüências. 

Ansioso por ver o sol despontar e espantar as nuvens para bem longe, pensando nas brincadeiras na praia com os amigos, Raul, 10 anos, nos últimos dias, passava a maior parte do tempo debruçado na janela da sala. Estava lá quando surgiu aquela vizinha gorda cambaleando pela calçada. Diziam que ela era maluca. Talvez tivessem razão, mas a cena não se parecia com uma crise de loucura. 

Raul gritou pela mãe. Quatro pessoas atenderam ao chamado e se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Mãe, pai, irmã cacete e irmão babaca. Em seguida todos correram a fim de socorrer Luíza. Raul foi incumbido de procurar Juarez no porto e avisá-lo sobre a sua esposa. 
“Mas mãe...” 
“Vá logo menino! Explique-lhe a situação! Diga que levaremos a sua esposa ao pronto-socorro!” 

“Pobre Juarez!”, pensou Raul. Ele era um sujeito tão legal! Vivia distribuindo presentes para a criançada, inclusive a bola de Rugby que dera a Raul a oportunidade de se tornar capitão do time infantil do bairro. Por que ele fora se casar 8 com uma moça tão gozada, gorda, baixinha? Ainda por cima era maluca! Como ela tinha coragem de sair por aí com um vestido daqueles? 

Raul era veloz e logo chegou ao porto. Tratava-se de um local que já fora bastante movimentado. Hoje em dia poucos empresários costumavam investir seu capital naquele ramo. Ali se situava o escritório das empresas que Juarez da Conceição administrava. Raul entrou correndo e contou o acontecido. O ouvinte não demorou mais do que alguns segundos apanhando as chaves do carro e se dirigindo em direção ao veículo. Nem se lembrou de oferecer carona a Raul. 
“Pobre Juarez!”, repetia o menino enquanto voltava para casa. 

Quinze quilômetros adiante, no mesmo hospital que atendera Luíza quando ela escorregara e caíra, sala de espera, Juarez recebia de um médico a impessoal notícia sobre a morte de sua esposa. Os gêmeos haviam sobrevivido, mas Juarez não se interessou pelos pequeninos. Também não se interessou pelos detalhes clínicos do óbito. Na verdade ele só voltara a si no instante em que o médico concluía o prognóstico. 
“A sua esposa deveria ter seguido as nossas recomendações!”, disse o doutor. 
Quando a família chegou e deixou transparecer, após os minutos iniciais de fingido pesar, os sorrisos de contentamento devido ao nascimento dos gêmeos Ramsés e Silvana – nomes que eles mesmos já haviam escolhido através de um acordo – Juarez decidiu partir. Não se despediu de ninguém. Torcia para que todos demorassem a perceber a sua ausência. 

Juarez da Conceição não apanhou o carro. Os seus familiares, caso quisessem e bem entendessem, poderiam vendê-lo a fim de pagar um enterro modesto e ligeiro para Luíza. Com o dinheiro que sobrasse seria possível até mesmo comprar roupas para os bebês e cordas para que todos se enforcassem. 

Juarez subiu no primeiro navio que estava de partida do porto daquela cidade. Talvez um dia ele tenha desejado a excitação do desconhecido, mas este ímpeto se perdera no passado como um fogo que se extingue sem matéria para queimar. Juarez cumprira a sua função social e ela lhe amargava a boca. Ele simplesmente decidiu ir embora."